terça-feira, 20 de abril de 2010

O professor e a diversidade




Quando prestei o vestibular para Letras, o fiz por um motivo bastante comum, não tinha outra opção. Todavia ao iniciar o curso pude perceber o quão importante é a “missão” para o qual estava sendo instruída, a de ser professora. É por ter percebido a importância do papel em que poderei um dia desempenhar, que me dirijo a você que já é professor ou que como eu ainda está em processo de aprendizagem, para pensarmos num tema muito discutido atualmente: multiculturalismo.
Sempre observei como na escola, em minha casa, no meu grupo de amigos, tínhamos opiniões diversas, e como muitas vezes éramos intolerantes uns com os outros, como ridicularizávamos as opiniões e as escolhas diferentes das nossas. Entretanto só percebi como essa atitude de intolerância era despropositada quando entrei na faculdade, pois foi nela que tomei conhecimento de um assunto que muito me atraiu - multiculturalismo. Foi em contato com esse tema que passei a ver a diferença de forma positiva, passei a olhar o outro e sua cultura com mais respeito.
Inicialmente pensava que tudo estava resolvido, mas depois conclui que eu continuava com as minhas opiniões, que não tinha mudado meu modo de ver as coisas, e nesse momento surgiram as seguintes inquietações: Como nós professores vamos trabalhar com várias pessoas de opiniões diferentes, sem ferir a elas e a nós mesmos? Para respeitar o outro é preciso que me adeque a ele? De que maneira passaremos para nossos alunos um tema como multiculturalismo sem recorrermos no erro da hipocrisia?
Um dos motivos que me levou a tantos questionamentos foi perceber o quanto meus professores eram contraditórios em suas “pregações” de igualdade e respeito às diferenças. Acredito que ao tentarem passar para seus alunos essas ideias, eles se esqueceram de aprendê-las, pois como dizia Paulo Freire, não existe ensinar sem aprender. É necessário que você professor passe para seu aluno aquilo que você vive, ou do que adiantará falar em respeito às diversidades lingüísticas, raciais, religiosas, sexuais, culturais... Se você, na prática, é totalmente intolerante e muitas vezes até mesmo, sem perceber, faz chacotas das escolhas que considera errada e inferiores às suas? É importante que você enquanto professor se lembre que em sua sala sempre existirão várias opiniões, e que talvez sua fala esteja inibindo um aluno e que após sua aula poderá se sentir inferior. O aluno muitas vezes acredita que só o fato do professor ser formado lhe dá o direito e a autoridade de expressar juízos de valor sobre os mais variados temas.


Analisando essas inquietações, verifiquei que a tolerância é uma grande aliada para um desempenho satisfatório de um professor que se diz respeitador. Para exemplificar, faço menção mais uma vez a Paulo Freire. Em seu livro “Pedagogia da Autonomia”, ele faz algumas considerações acerca do papel do professor, mas a que mais me chamou a atenção foi no que diz respeito à tolerância: “O meu respeito de professor à pessoa do educando, à sua curiosidade, à sua timidez, que não devo agravar com procedimentos inibidores exige de mim o cultivo da humildade e da tolerância.” É claro que ele não usa o termo multiculturalismo, mas podemos usar esse “conselho” para aplicarmos tanto no que diz respeito à curiosidade e timidez, quanto para as opiniões, crenças e costumes; visto que tudo isso perpassa um mesmo assunto, respeitar e tolerar o outro é extremamente importante para o desempenho do professor e do aluno.
Foi depois dessas observações que me coloquei no lugar de meus professores, e comecei a me preocupar com a posição que eu iria tomar caso me tornasse professora. Uma pergunta que sempre quis fazer aos professores que falavam do multiculturalismo, era se eu poderia discordar e ao mesmo tempo respeitar as escolhas das outras pessoas, nunca tive coragem de perguntar, pensei ser uma ideia ridícula. Porém ao ler essas palavras de Paulo Freire (2006): “[...] reconhecer a existência de heranças culturais deve implicar o respeito a elas. Respeito que não significa, de modo nenhum, a nossa adequação a elas”. Vi que não era tão ridícula a minha ideia. Constatei que para respeitar os meus possíveis alunos, não será preciso mentir, negar as minhas discordâncias, e sim expor o que eu penso sem desrespeitá-los, e nem menosprezá-los por pensarem diferente.
Como já ressaltei, muitas vezes muitos professores “pregam” aquilo que não vivem. Na realidade o que acontece é que os estabelecimentos de ensino, tentando resgatar o respeito para alguns grupos marginalizados, fazem isso em detrimento a outros, é como se, para “exaltar” um, tivesse que “humilhar” o outro. Dessa maneira o discurso do acolhimento a todas as culturas, termina sendo invalidado, e tendo um efeito contrário, ao invés de “acabar” com o preconceito, mudam-se apenas as posições, de preconceituosos e do que sofre o preconceito.
Concluindo, é necessário que não apenas o professor esteja preparado para acolher o novo, o diferente, mas a escola também, pois não adiantará o professor chegar cheio de vontade de fazer um bom trabalho em cima desse tema, e ser podado por uma escola que ainda vive de ações conservadoras que na verdade mascaram o preconceito nela enraizado.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Um olhar voltado aos professores.

Durante todo o curso de Letras Vernáculas, discutíamos bastante sobre a formação do professor, haja vista que estávamos sendo “formados” para exercer o papel de educadores. Questões como o hábito de leitura e escrita dos educadores sempre foi um dos pontos mais debatidos, na verdade podemos perceber que esse debate é feito com o propósito de investigar, verificar a postura do professor, a formação que ele tem recebido. Daí surge modelos idealizados de professor, modelos estes que nem sempre condizem com a realidade, pois como já estamos cansados de saber, a articulação entre a teoria e a prática também ficou no campo do ideal, e não do real.

Um perigo nesse tipo de investigação é a generalização do sujeito professor, porque ao tentar analisar a formação e a prática docentes como se elas fossem comuns a todos os professores, acabam esquecendo-se das necessidades de cada um. Da mesma forma que precisamos trabalhar com os nossos alunos pensando nas peculiaridades de cada um, é importante que as ações tomadas em torno da formação de professor, leve em consideração as diferenças não só profissionais, mas também pessoais e sociais dos professores. Ludmila Andrade (2004) coloca que os profissionais responsáveis pela investigação educacional devem saber quem é o professor, pois nessa tarefa é preciso considerar a natureza dos saberes, os tipos de reflexão e a prática de cada docente.

Segundo José Sacristán (2006) a investigação educativa não tem se preocupado com a realidade profissional, e nem com as condições de trabalho vividas pelos professores, mas sim dando espaço aos inúmeros discursos existentes. Tudo isso não quer dizer que não devamos refletir sobre as práticas docentes, pelo contrário, é analisando a atualidade que conseguimos traçar metas para a melhoria do futuro, e no campo da educação a necessidade de melhorias é constante.